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Em cada um de nós existe um poema .
Um por escrever ... um escrito que se quer procurado ... e se mantêm escondido na alma ... no coração.
Ser poeta ... não é escrever poemas.
É saber descobrir na poesia ...
a parte que falta em si ...
a parte que falta ... nos outros .

Urbano Gonçalo




terça-feira, 11 de janeiro de 2011

I can see clearly now




Esta não era uma manhã especial, bem pelo contrário.Mas ao arrumar as cortinas da janela, imagino indiferente ao mau tempo, tudo de novo à minha volta, tudo lindo e iluminado pelo sol radioso. Ao contrário do habitual, não deixei o relógio acordar-me com o seu toque irritante. Levantei-me mais cedo e consegui demorar-me anormalmente no chuveiro, sentindo o calor da água abraçar-me. Quase, quase me aventurei a cantar algo. Cantar a vida, cantar o amor, cantar, cantar.

Mas ... porquê tudo isto afinal? Porquê este fulgor imprevisto e inusitado?

A conta continua no negativo, o mês ... comprido, o futuro que se me afigura é o dia incerto e desconhecido de hoje.
Na TV, o noticiário madruga com as suas "interessantes" desgraças, e prevendo já outras para amanhã, assaltando assim os nossos sentidos "numb" com velhos e intemporais fantasmas obsoletos. Não me interessa nada disso, pelo menos ou muito menos hoje, e penso até como poderá isso interessar a alguém.
De saída conto os tostões para a gasolina e vou trabalhar na minha precariedade e ... na riqueza dos outros. No final do dia, sabe bem descansar o corpo e voltar a ouvir as "mesmas" notícias, enquanto observo desgastado pelo cansaço o frigorífico vazio e ouço o silêncio do meu estômago resignado.
Coberto com as minhas velhas mantas, fecho por fim os olhos na esperança de me poder ver ... um novo dia conhecer. Adormeço assim, embalado por uma frase difícil de dizer: - Apesar de tudo, é muito bom viver! Apesar de tudo é ...

A esperança é uma forma subtil de felicidade, que nunca devemos perder, que nunca devemos esquecer. Tudo o que de "material" nos rodeia, poderá desaparecer em qualquer altura e por qualquer razão, mas ... haverá sempre dentro de cada um de nós, algo que pacientemente aguarda o nosso "CRER".

Deitemos fora o "caderno 2010".
Agora temos pela frente mais um ano lectivo de uma escola chamada VIDA.
Vamos quais miúdos ansiosos, estrear um caderno novo, e sentir o inconfundível cheiro, das suas brancas e imaculadas folhas. Vamos por fim escrever nelas muitas e belas histórias, fazer muitos e belos desenhos, resolver genial-mente muitas e complicadas equações matemáticas.
No final do ano, espero ... "passar", ter o caderno cheio, os lápis gastos e a borracha ainda nova, ou quase. Sim, pois ela é a verdadeira professora nesta escola, é ela quem silenciosamente nos ensina e nos dá as "notas" finais.
Uma borracha muito gasta, significa muitos erros cometidos, muitas alterações, enganos, ocultações e ... desilusões.
Mas, se pelo contrário ela estiver "quase nova", então isso significa sabedoria, certezas, personalidade, convicções, e acima de tudo confiança em nós mesmos.

Se acreditar-mos em nós, passaremos ano após ano nesta escola com distinção.
No final, o diploma certifica o ... LEGADO.
O legado esse ... só o consegue quem um dia à noite, em lágrimas for ... recordado.

4 comentários:

Fatima disse...

Quanta inspiração meu querido amigo!
Um a música para vc:

Bom Dia

Composição: Vander Lee

Bom dia...
Como estar vivo é bom
Sorria
Todos têm esse dom
Deixa eu cantar pra ti
Deixa eu dançar no seu salão
Varrer o seu quintal
Colocar seus pés no chão
Molhar o seu jardim
E preparar seu pão
Sorriso de maçã com beijos de melão

Andar a pé, deixar fluir a fé
Num velho novo dia
Em que estar vivo é bom
Magia
Deixa rolar o som

Deixa eu cantar pra ti
Deixa eu dançar no seu salão
Varrer o seu quintal

Colocar seus pés no chão
Nos lábios da manhã, palavras de algodão
E flores de romã no seio da canção

Quero te ver dormir e acordar,
Ver que viver nunca é em vão.
?Fadas no jardim, pragas no capim
Tudo quer brincar dentro de mim
Vento, boi da cara preta
Vai ninando as roupas brancas no varal
Diz ao querubim
Que venha tocar na minha corda vocal
Que me dê matéria prima
Que eu te faço aquela rima colegial
Poemas semeados no jardim da infância
Regados pelo fogo do desejo
Subindo pela rua, crescendo no muro
Me colorindo o futuro como um beijo?

Bjs.

Regina Rozenbaum disse...

Urbano, amado!
Pois escrevamos e seja inscritos nessa VIDA que a despeito dos noticiários, das dificuldades nossas de cada dia, vale mesmo a pena de ser vivida. Intenso e lindo texto (eu posso ver luz agora) para começarmos o doismileonze!!!
Beijuuss estalados de novos n.c.

JB disse...

Na esperança depositamos o caminhar do dia-a-dia e edificamos os sonhos procurando vivê-los a cada aurora...

Um belo texto!

Beijinho

Cristina Moreira disse...

Oi, Urbano!

Que lindo texto, "a esperança é uma forma sutil de felicidade, que nunca devemos perder..."

Mas fiquei pensando no "caderno de 2010". E pensei que uma borracha nova é sinal ou do abandono do caderno e do lápis ou da autocrítica. Se abandonamos o caderno e o lápis, desistimos de pensar, de refletir sobre essa vida que nos sacode continuamente e parece nunca nos querer onde estamos. O abandono da autocrítica dá a sensação maravilhosa e falsa de que nunca erramos, de que atingimos a maturidade de cometer poucos ou nenhum erro - finalmente, o encontro da verdade absoluta, quimera a que buscamos com teimosia pueril.

A borracha gasta revela a luta para enxergar os próprios erros e para corrigi-los. Indica a humildade necessária para se reconhecer humano e contraditório, como todos, afinal.
Não, não quero passar de ano com um caderno irretocável, praticamente sem erros. Pois o que é erro? Um nome severo, rígido, preconceituoso e prepotente, um nome de óculos e palmatória, que nos entra pela garganta e nos morde a alma, cada vez que se vê refletido em nossos olhos.
Quero um caderno apagado e reescrito, com evidências de "erros" procurados, vistos e corrigidos. Minha meta é o caminho, não a chegada. Desvios do caminho são caminho. Desviar é também caminhar. No caminho, são erros suposições, tentativas, lutas, avanços e recuos, idas e vindas que nos fazem conhecê-lo, reconhecê-lo, compreendê-lo e trilhá-lo melhor. O medo do erro tira a coragem de desvendar o mundo e o novo. A reconciliação com ele é reconciliação com a vida e com seus processos tortuosos.

Beijo!
Cris

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