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Em cada um de nós existe um poema .
Um por escrever ... um escrito que se quer procurado e se mantêm escondido na alma ... no coração.
Ser poeta ... não é escrever poemas.
É saber descobrir na poesia ... a parte que falta em si, a parte que falta ... nos outros .

Urbano Gonçalo




sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O Diário da Nossa Paixão

   
Espreito para o fundo do corredor e vejo Janice sentada à secretária principal. Pelo menos penso que é Janice. Tenho de passar por aquela secretária para chegar ao quarto de Allie, mas a esta hora não me é permitido deixar o meu quarto, e Janice nunca foi daquelas pessoas que esquecem as regras. O marido dela é advogado.
Espero para ver se se levanta, mas não parece querer mover-se, e começo a ficar impaciente. Por fim, saio do quarto de qualquer maneira, arrasta-devagar, escorrega da direita, arrasta-devagar.
Demora uma eternidade para percorrer a distância, mas por um motivo qualquer ela não me vê aproximar. Sou como uma pantera silenciosa a rastejar na selva, sou tão invisível como pombos bebés.
Por fim sou descoberto, mas não fico surpreendido. Endireito-me diante dela.
- Noah, - diz - o que anda a fazer?
- Estou a dar um passeio. - digo - Não consigo dormir.
- Sabe que não está autorizado a fazer isso.
- Sei.
Não me mexo, porém. Estou determinado.
- Não está a pensar dar um passeio, pois não? Vai ver a Allie, não é?
- Sim. - respondo.
- Noah, sabe o que aconteceu da última vez que a foi ver de noite, não sabe?
- Eu recordo-me.
- Então sabe que não deveria fazer isto.
Não respondo directamente. Em vez disso, digo:
- Tenho saudades dela.
- Sei que tem, mas não posso deixá-lo ir vê-la.
- É o nosso aniversário. - digo - E é verdade. Falta um ano para as bodas de ouro. Faz hoje quarenta e nove anos.
- Estou a ver.
- Então posso ir?
Vira a cara por um momento e a voz dela muda. Tornou-se mais doce agora, e fico surpreendido. Nunca me pareceu ser do tipo sentimental.
- Noah, há cinco anos que trabalho aqui e trabalhei noutro lar antes deste. Já vi centenas de casais em luta com o sofrimento e a tristeza, mas nunca vi ninguém suportá-los como você faz. Ninguém por aqui, nem os médicos nem as enfermeiras, alguma vez viram algo de parecido.
Faz uma pausa por um breve momento e, estranhamente, os olhos começam a encher-se-lhe de lágrimas. Limpa-as com o dedo e continua:
- Tento calcular como deve ser para si, como você continua a aguentar dia após dia, mas eu nem sequer consigo imaginar. Não sei como consegue. Você às vezes até é capaz de vencer a doença dela. Mas mesmo os médicos não compreendem, nós as enfermeiras compreendemos. É o amor, tão simples como isso. É a coisa mais incrível que alguma vez vi.
Um nó cresceu-me na garganta e fico sem saber o que dizer.
- Mas, Noah, não lhe é permitido fazer isto, e eu não posso deixá-lo. Por isso, regresse ao seu quarto.
Depois, sorrindo docemente e fungando e remexendo em alguns papéis que tinha sobre a secretária, diz: - Por mim, vou até lá abaixo tomar café. Por um bocado não estarei de volta para verificar o que se passa consigo, por isso não faça nenhum disparate.
Levanta-se rapidamente, toca-me no braço, e vai em direcção às escadas. Não se vira para trás e de repente encontro-me só. Não sei o que pensar. Olho para onde ela estava sentada e vejo o café, uma chávena cheia, ainda a fumegar, e mais uma vez aprendo que ainda há pessoas boas no mundo.
Sinto-me quente pela primeira vez em muitos anos quando começo a minha jornada até ao quarto de Allie. Dou passos do tamanho de pequenos gnomos, e mesmo estas passadas são perigosas, porque as minhas pernas já estão cansadas. Descubro que tenho que me encostar à parede para não cair. As luzes zumbem-me por cima da cabeça, o seu brilho florescente magoa-me os olhos, e pisco um bocado.
Passo por uma dúzia de quartos às escuras, quartos onde já antes estive a ler, e apercebo-me de que tenho saudades das pessoas que estão lá dentro. São os meus amigos, cujas caras conheço tão bem, e amanhã vê-los-ei a todos. Mas não esta noite, porque não há tempo para parar nesta jornada. Apresso-me para diante, e o movimento força o sangue adentro das artérias esquecidas. Sinto-mo mais forte a cada passo. Oiço uma porta a abrir-se atrás de mim, mas não oiço passos, e continuo. Agora sou um estranho. Não posso ser interceptado. Um telefone toca na secção das enfermeiras, e empurro-me para a frente para não ser apanhado. Sou um bandido da meia-noite, mascarado e voando a cavalo através de adormecidas cidades do deserto, carregando luas amarelas com poeira de ouro nos alforges da minha sela. Sou jovem e forte com paixão na alma e irei quebrar a porta e pegar nela com os meus braços e transportá-la para o paraíso.
A quem estou a enganar?
Agora levo uma vida simples. Sou um idiota, um velho apaixonado, um sonhador que não aspira a nada mais do que ler para a Allie e abraçá-la quando é possível. Sou um pecador com muitas faltas e um homem que acredita em magia, mas sou demasiado velho para mudar e demasiado velho para me preocupar com isso.
Quando, por fim, chego ao quarto dela, o meu corpo está fraco. As pernas tremem-me, tenho os olhos desfocados e o coração bate de uma maneira estranha dentro do meu peito.
Luto com a maçaneta da porta, que no fim me exige duas mãos e três camiões de esforço. A porta abre-se e a luz do corredor derrama-se para dentro do quarto, iluminando a cama onde ela dorme. Penso, assim que a vejo, que não sou mais que um passante numa rua cheia de azáfama da cidade, esquecido para sempre. O quarto está em silêncio e ela está deitada com as cobertas até metade. Após um momento vejo-a voltar-se para o lado, e os ruídos que trazem memórias de tempos mais felizes. Ela parece pequena naquela cama, e enquanto a observo sei que está tudo acabado entre nós. O ar está bafiento e tenho um arrepio. Este lugar tornou-se no nosso túmulo.
Não me mexo, neste nosso aniversário, durante quase um minuto, e anseio por lhe dizer como me sinto, mas fico quieto para não a acordar. Além disso, está escrito no pedaço de papel que lhe vou enfiar debaixo da almofada:

             O amor, nestas últimas e ternas horas,
             é muito sensível e muito puro.
             Vem, aurora, com o poder da luz nova
             acordar um amor ainda mais seguro. 

Acho que oiço alguém a chegar, por isso entro no quarto e fecho a porta atrás de mim. A escuridão desce e atravesso o chão de cor e chego à janela. Abro as cortinas e a Lua devolve o olhar, grande e cheia, a guardiã da noite. Viro-me para Allie e sonho mil sonhos, e embora saiba que não o devia fazer, sento-me na cama enquanto lhe enfio o pedaço de papel por baixo da almofada. Depois estico-me e toco-lhe suavemente na cara, macia como pó. Faço-lhe uma festa no cabelo, e fico sem respiração. Sinto o terror, como um compositor a descobrir pela primeira vez as obras de Mozart. Ela mexe-se e abre os olhos, encolhendo-se docemente, e de súbito lamento a minha loucura, porque sei que ela irá começar a chorar e a gritar, porque é isso que faz sempre. Sou arrebatado e fraco, eu sei, mas sinto um forte impulso para tentar o impossível e inclino-me para ela, as nossas faces aproximando-se.

E enquanto os lábios dela encontram os meus, sinto um formigueiro estranho como nunca antes senti, em todos os nossos anos juntos, mas não me afasto. E subitamente, um milagre, porque sinto a boca dela aberta e descubro um paraíso esquecido, imutável durante todo este tempo, sem idade como as estrelas.
Sinto o calor do seu corpo, quando as nossas línguas se encontram, e deixo-me escorregar, como fazia há tantos anos. Fecho os olhos e torno-me num enorme navio em águas agitadas, forte e destemido, e ela é a minha vela. Suavemente desenho-lhe o contorno da face, depois seguro a mão dela na minha. Beijo-lhe os lábios, as faces, e fico a ouvir enquanto ela murmura docemente:
" Oh, Noah ... senti a tua falta." Outro milagre (o maior de todos!) e não há maneira de suster as lágrimas quando começamos a deslizar para o próprio céu. Porque, nesse momento, o mundo está cheio de maravilha enquanto sinto os seus dedos procurarem os botões da minha camisa e devagar, muito devagar, ela começa a desabotoá-los, um a um.

NICHOLAS SPARKS.


Nicolas Sparks é um nome sobejamente conhecido em todo o mundo.
Os seus romances conseguem seduzir do princípio ao fim, devido ao seu inconfundível estilo auto-didacta.
Este tal como quase todos os outros acaba como precisamente poderia estar a começar. É para mim uma mais valia sua, um "touché" de mestre.

Não sendo eu um "expert" nem por sombras, permito-me aqui mostrar um bocadinho do muito que este autor nos dá.
Aconselho.

1 comentário:

G I L B E R T O disse...

Urbano

O excerto que nos mostrastes é de tirar o folego.

Grato meu amigo, vou conhecer mais a obra de Sparks, graças a sua valorosa indicação!

Como sempre, posts muito inteligentes em teu blog, meu amigo!

Sejas feliz neste natal!

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