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Em cada um de nós existe um poema .
Um por escrever ... um escrito que se quer procurado ... e se mantêm escondido na alma ... no coração.
Ser poeta ... não é escrever poemas.
É saber descobrir na poesia ...
a parte que falta em si ...
a parte que falta ... nos outros .

Urbano Gonçalo




domingo, 25 de novembro de 2012

Chopin ... é um frango


Os meus pais a quem a minha indiferença escolar preocupava (passei o liceu a fumar às escondidas e a pasmar para a mulher do farmacêutico e a universidade o jogar xadrez num cubículo sem janelas logo a seguir ao vestiário), trataram de arranjar explicadores decididos a meterem-me na cabeça, à força, o que me recusava a aprender.
Entre outros carrascos contrataram, tinha eu 13 ou 14 anos e uma alergia feroz às aulas, um homem gordo que se deveria ocupar a fazer-me entrar em êxtase com o desenho geométrico, amontoando cubos, cilindros e pirâmides, a tracejado e a cheio, em papel cavalinho. Era num segundo andar ao Jardim das Amoreiras que cheirava a entretela e a almôndegas, o carrasco, careca, suava de desespero a rosnar
- Camelo!
enquanto eu, em lugar de o ouvir, escutava as lições de piano do prédio vizinho no qual uma menina (tinha a certeza que era uma menina de laço cor-de-rosa no cabelo, aparelho nos dentes e soquetes brancos) tocava Chopin como quem arranca penas a um frango vivo. O sofrimento do frango quase me fazia chorar de puro dó e no dia seguinte dava por mim perplexo diante da canja do almoço, à cata de semifusas entre as bolhas de azeite e a garantir à minha mãe afastando o prato com as costas da mão
- Não quero comer Chopin!
com ela a olhar também a sopa, receosa de que houvesse uma Polonaise ou um Noturno a flutuar entre os miúdos.
A minha repulsa por carne de galinha ia aumentando com as aulas do Jardim das Amoreiras em que me apetecia abandonar o careca para salvar o compositor moribundo dos dedos assassinos da menina de arame nos molares, levá-lo para casa debaixo do braço e deixá-lo, em paz na capoeira a escrever as suas valsas repimpado no poleiro.

Sempre que a canja regressava eu ía argumentando inabalável
- Não mastigo músicos!
recordado do Chopin assassinado, três vezes por semana, à esquerda da projeção das esferas.
Da canja passei ao vol-au-vent, às empadas, ao arroz de galinha e ao frango de churrasco, após o que principiei a recusar-me a ir à Feira Popular em cujos restaurantes giravam em espetos, com homens de avental a convidarem-me para banquetes antropófagos, dezenas de Chopins a pingarem gordura nas brasas.

Ainda hoje, passado tanto tempo, me apetece processar aviários e lançar fogo a todos os Reis dos Frangos que encontro por Lisboa, cheios de gente a chupar ossinhos de colcheias e a deitar piripiri em asas de allegretos.
Tenho a certeza de que a menina de laço no cabelo continua, no prédio do Jardim, de que as arcadas se dissolvem à tarde  quando os bandos de pombos levantam voo da pedra, a arrancar penas e ais a um piano na agonia.
Estou certo que aos domingos todo o mundo engole Chopin com batatas fritas Pala-Pala, juntamente com as queijadas compradas no passeio de Opel a Sintra.

Ninguém fala. Ninguém se preocupa. Ninguém se interessa. Ninguém protesta. O Greenpeace não faz nada. A Amnistia Internacional emudece. Os Direitos do Homem omitem. Mas posso assegurar-vos que sempre que me coloco à porta de uma cervejaria de churrasco oiço as tripas dos clientes que saem de palito na boca a maldizer o governo (as pessoas de palito na boca maldizem sempre o governo e as que nem palito têm maldizem a vida) oiço as tripas dos clientes, dizia, tocarem borborigmos de claves de sol que uma camada de bagaço amortece.

António Lobo Antunes - "Algumas Crónicas"

1 comentário:

Regina Rozenbaum disse...

kkkkkkk essa comparação é a primeira vez que vejo. Tem mesmo imaginação esse cronista.
Beijuuss meu amigo

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