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Em cada um de nós existe um poema .
Um por escrever ... um escrito que se quer procurado e se mantêm escondido na alma ... no coração.
Ser poeta ... não é escrever poemas.
É saber descobrir na poesia ... a parte que falta em si, a parte que falta ... nos outros .

Urbano Gonçalo




quinta-feira, 13 de março de 2014

Novo romance (excerto)


Um vento suave pairava por ali afora, um vento tão suave, que parecia o sopro de alguém que brinca connosco, quando nos quer acordar.
A figueira nem abanava, e tudo por ali estava adormecido num torpor inexplicável, de tão subtil.
Os pássaros, esses, contrariavam a calmaria da ordem, barafustando uns com os outros e saltando de ramo para ramo incansavelmente, apenas tendo nas andorinhas, concorrência no desassossego.
O velho Tobias voltava-se para o outro lado, no banco sob a figueira-brava rabujando num hálito alcoólico
- Ucelli´s!!

As andorinhas eram as minhas aventureiras preferidas desde miúdo.
Elas voltavam impreterivelmente todos os anos ao mesmo local e ao mesmo ninho, o que me deixava intrigado e mesmo ... abismado.
Uma vez, cometi o sacrilégio - inocente - de roubar um ovo, de um desses ninhos, que existiam lá no beiral da casa da minha avó.
Roubei, e tive-o cuidadosamente comigo dois dias. Dois dias, de longo, de inexplicável martírio para mim, pois se por um lado não conseguia ver a mãe andorinha a procurar o seu ovo, num desespero incansável de mãe, por outro, não preguei olho durante esses dois dias, com medo de o ovo eclodir e eu não saber minimamente o que fazer. Assim, voltei a colocá-lo no ninho, ciente de que a andorinha me perdoaria o pecado. No fundo, eu só queria, que pelo menos uma delas, cá ficasse comigo, evitando eu nesse ano, uma longa, perecível e eterna espera pelo verão seguinte, altura em que eu ouviria novamente o seu doce chilrear, e imaginaria todas as suas novas aventuras por esse mundo fora.

Assim, quando a minha avó morreu, chorei que me fartei, não só por ela, mas também e sobretudo, porque temia que as andorinhas nunca mais cá voltassem, nunca mais povoassem o meu mundo imaginário e feliz.
Essa agonia aumentou, quando os meus pais decidiram alugar a parte de cima da casa, precisamente a parte onde a minha avó habitara. Agonia, agonia quando qualquer pessoa lá ia ver a casa, agonia e ... muito barulho que eu então fazia no pátio a jogar à bola, na secreta esperança de que aquelas pessoas não quisessem lá ficar, a aturar fedelhos mal comportados e barulhentos.
Passados dois meses, o senhor João - sapateiro - alugava a casa e eu morria literalmente.
Não era apesar de tudo má pessoa esse senhor João, eu até muitas vezes ficava a vê-lo arranjar o calçado dos clientes, sentado no muro da casa dos meus pais. Dividia assim o melhor de dois mundos, pois se por um lado jogava às marcas de carros com o meu amigo e vizinho Viriato - cada um escolhia uma marca, tipo: Mercedes, BMW, ou outra, depois durante meia hora contava-mos o números de carros dessas marcas que por ali passavam - por outro lado observava curioso o senhor João. Tinha umas mãos muito calejadas, muito mesmo, lembro-me de que uma vez tentei sem ele ver, puxar um daqueles fios com que ele cozia a sola dos sapatos, e de ter ficado com uns grandes sulcos marcados nas minhas mãos, sulcos de dor, por não ter os tais calos.
Eu queria o verão, queria, queria e pronto, e nem o senhor João sapateiro, nem o senhor António Mulareira - lavrador que vivia em frente - quando trocava a junta de bois, e os tirava contra a vontade deles de dentro do camião a pulso e chicote, me faziam desviar as ideias - ele era a coisa mais parecida para mim, com o Ben-Hur que eu vi até hoje.


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