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Em cada um de nós existe um poema .
Um por escrever ... um escrito que se quer procurado ... e se mantêm escondido na alma ... no coração.
Ser poeta ... não é escrever poemas.
É saber descobrir na poesia ...
a parte que falta em si ...
a parte que falta ... nos outros .

Urbano Gonçalo




sexta-feira, 18 de junho de 2010

Surreal ...

Vagueio pela praia junto ao mar, persigo inadvertidamente umas pegadas na areia, que desconheço.
Aqui e ali são quase iguais às minhas, aqui e ali uma onda mais rápida apaga algumas. Prossigo a minha caminhada, sentindo o vento que me empurra, mas não lhe ligo e continuo no rasto das pegadas até chegar ao seu fim.
Inexplicável-mente elas ... acabam repentinamente, terá sido o mar que as apagou?
Sento-me por ali, atiro pedras à água e observo as gaivotas ao longe que acompanham um pequeno barco de pesca. O pescador ao remar, parece uma espécie de maestro das gaivotas que barulhentas dançam em seu redor.
Passo a mão pela areia húmida e sinto-a fugir-me por entre os dedos, deixando lá algo no fim.
- Uma pedra! pensei eu.
Não, não era uma pedra, era uma ... aliança, uma antiga e muito castigada pelo tempo aliança, olhei para o seu interior e reparei na inscrição "Together Forever". Senti-me estranho, senti-me como se de repente tivesse nas mãos uma parte da vida de alguém. Atónito, olhei atrás de mim o areal por onde passei ... já não existiam pegadas nenhumas, nem minhas nem as que até ali segui. Duas gaivotas pousaram nesse momento perto de mim e ali se mantiveram juntas indiferentes a mim sem se afastarem. Voltei a olhar a aliança, pensei nas pegadas que me levaram até ali, e ali se apagaram quando na areia por acaso a encontrei.
As ondas cresciam então até mim, molhando-me as pernas, mas não me puxavam, recuei um pouco mas elas voltavam sempre. Lavei a aliança na água das ondas, e li de novo a inscrição no seu interior, as gaivotas aproximaram-se parando pouco depois observando-me  quietas, senti o vento mais forte e as ondas mais altas. Olhei o céu, levantei o braço e atirei a aliança com todas as minhas forças, para uma onda que ao longe se erguera para a receber.
Então, as gaivotas lentamente partiram, o vento acalmou, e o mar banhou-me suavemente os pés, deixando-me ali sozinho com o pôr do sol que entretanto chegara.

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