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Em cada um de nós existe um poema .
Um por escrever ... um escrito que se quer procurado e se mantêm escondido na alma ... no coração.
Ser poeta ... não é escrever poemas.
É saber descobrir na poesia ... a parte que falta em si, a parte que falta ... nos outros .

Urbano Gonçalo




sábado, 12 de setembro de 2009

Saudades de mim


 
 
Tenho saudades de mim!
Já fui em tempos livre, esperançado no futuro, alegre, descontraído, sensível.
Já "perdi" tempo a olhar os outros e a sorrir-lhes, tendo a certeza de que os via, e eles me viam também. Já corri pela areia da praia feliz com uma concha rara na mão. Já inventei histórias, poemas, lendas e brincadeiras à noite sozinho no sofá que me servia de cama. Um dia vieram ter comigo, uns estranhos ao meu mundo, e disseram-me que para meu bem, a partir daquele dia eu iria deixar de ser miúdo. Entregaram-me uns sacos cheios, os quais eram bastante pesados no conjunto. Abri um deles e lá estava eu, em frente a uma máquina a ficar surdo durante quatorze horas por dia, e a olhar ansiosamente para o relógio, enquanto me escreviam nas costas "Obrigação", "Sonhos".
No outro saco, estavam vários itens entre os quais, casa, carro, férias, roupa, cartão de crédito e outros bens de "primeira necessidade psicológica", fiquei mais contente e logo tentei de lá retirar algo. Algo esse que teimava em não sair, por mais que eu fizesse.
Virei o saco do avesso, mas mesmo assim nada de lá saiu ... "estranho!!!"
Peguei então no terceiro saco, que era muito leve. Abri-o e avistei lá no fundo uma pequena pomba branca ( - Esta, é a saca da liberdade! - pensei eu ), tentei apanhar a pomba, mas ela fugia, fugia, até que eu desisti.
Voltei ao primeiro saco, e voltei a abri-lo. Já não estava a trabalhar nas máquinas, a fábrica tinha fechado, mas eu estava algures a conduzir um carro de outra firma, só ... infeliz, angustiado, tentando ferozmente sorrir, agradar e ... não ser julgado.
Voltei ao segundo saco para desanuviar, no entanto já tinham desaparecido as férias, a roupa, e a maior parte dos bens, apenas ainda lá figuravam cada vez mais no fundo e pequenos, a casa e o carro.
O único que tinha aumentado de tamanho era o cartão de crédito que agora se mostrava mais perto de mim. Farto dos tais sacos ainda abri novamente o terceiro, mas ao fazê-lo a pomba logo fugiu para bem longe de mim, em direcção ao mar. Seguiu-a o meu olhar na esperança de que voltasse, mas ela nunca mais voltou.
Se algum dia abrirem um saco, uma porta ou um pressentimento no vosso coração ... escolham o mais leve frágil e puro, pois mesmo não parecendo inicialmente grande coisa, pode muito bem ser apenas e só o vosso ... futuro.

1 comentário:

Manuel Ribeiro disse...

Muito interessante! Verdadeiro e sentido mas,com sentido de
> humor.Partilhei( lhamos)o teu "desabafo".Ri( rimos),não de ti mas
> contigo.A vida dá muitas voltas.Ou seremos nós que damos voltas à
> vida?Não importa! O importante é não desistir e acreditar. Cristina e
> Manel

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