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Em cada um de nós existe um poema .
Um por escrever ... um escrito que se quer procurado e se mantêm escondido na alma ... no coração.
Ser poeta ... não é escrever poemas.
É saber descobrir na poesia ... a parte que falta em si, a parte que falta ... nos outros .

Urbano Gonçalo




sábado, 2 de junho de 2012

Cold Mountain




Ada ouviu os disparos à distância, secos e ténues como paus a partirem-se.
Não disse nada a Ruby. Voltou-se simplesmente e desatou a correr.
O chapéu voou-lhe da cabeça, mas continuou e deixou-o no chão como uma sombra atrás de si. Encontrou Stobrod agarrado à crina de Ralph com toda a força, embora o cavalo já tivesse abrandado para trote.
- Lá atrás ! - disse Stobrod sem parar.
Quando ela alcançou o local, aproximou-se dos homens caídos no chão. Olhou para eles e depois reparou em Inmam, mais afastado.
Sentou-se e aparou-lhe a cabeça no colo. Ele tentou falar, mas ela acalmou-o.
Ele perdia e recuperava a consciência e sonhou com uma casa.
Tinha uma nascente de água fria que brotava da rocha, campos de terra preta, árvores velhas. No sonho, o ano parecia desenrolar-se todo ao mesmo tempo, com as estações todas misturadas. Macieiras carregadas de fruta, mas inexplicavelmente a florir, o gelo a enfeitar a Primavera, plantas de quiabos a apresentarem flores amarelas e castanho-avermelhadas, as folhas dos bordos vermelhas como em Outubro, as extremidades do milho a formar borlas, uma cadeira estofada puxada para dentro da lareira incandescente da sala, as abóboras a luzir nos campos, os loureiros em flor pelas colinas, as margens dos regos cobertas de heliotrópio cor de laranja, flores brancas nos cornizos, púrpuras nas olaias.
Tudo a acontecer simultâneamente. E havia carvalhos brancos e uma grande quantidade de corvos, ou pelo menos os espíritos dos corvos, a dançarem e a cantarem nos ramos mais altos. Havia algo que ele desejava dizer.

Um observador situado no cimo do monte contemplaria um quadro distante e imóvel nos bosques de Inverno. Um riacho, vestígios de neve. Uma clareira arborizada, quase isolada da humanidade. Um par de amantes.
O homem recostava a cabeça no regaço da mulher, e ela olhava-o nos olhos,  passava-lhe a mão pelo cabelo. Ele estendia desajeitadamente um braço para a abraçar à volta da anca. Tocavam-se ambos com grande intimidade. Uma cena tão cheia de paz e serenidade que o observador, na cumeada, poderia recontá-la mais tarde por forma a levar os detentores de temperamento jovial a imaginarem uma história concebível, na qual várias décadas de uma união feliz se estendiam diante daquelas duas pessoas ali no chão.

COLD MOUNTAIN - Charles Frazier.


O livro é seguramente muito melhor que o filme que se lhe seguiu, no entanto só talvez quem leu (como eu) o livro primeiro, se poderá aperceber disso.
Acaba praticamente assim esta história (longa), de alguém que sempre foi guiado pelo coração, e cujo desejo de regressar ao seu lar, acabaria por se revelar fatal.
Muito bonita esta história do Frazier, ele que a certa altura do livro "bloqueou" literalmente, acabou por reencontrar o caminho da inspiração oferecendo-nos assim este belo livro, que aqui recordo e deixo uma das partes mais belas.

2 comentários:

Regina Rozenbaum disse...

Se vc recomenda tá anotado!
Beijuuss, amado, n.a. e obriagada por sua solidariedade amiga.

Por que você faz poema? disse...

Acho que está na hora
de eu conhecer o livro

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