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Em cada um de nós existe um poema .
Um por escrever ... um escrito que se quer procurado ... e se mantêm escondido na alma ... no coração.
Ser poeta ... não é escrever poemas.
É saber descobrir na poesia ...
a parte que falta em si ...
a parte que falta ... nos outros .

Urbano Gonçalo




domingo, 15 de julho de 2012

Manual de instruções

Este post é dedicado ao meu escritor preferido.

António Lobo Antunes (ALA, como alguns lhe chamam!!), é atualmente uma incontornável referência na escrita portuguesa. Na verdade já o é há muitos anos, e a provar isso está a banal comparação que muitos teimam em fazer com Saramago.

Para mim, as comparações são como os gostos ... não se discutem! Muitas pessoas dizem da minha escrita, ser "escorreita" muito ... Lobo Antunes.
Quem me dera, uma ligeira parecença ... digo eu, mas enfim.

Vou aqui homenagear este grande autor, recorrendo a um pequeno livro seu, que no meu entender (de leigo!), mostra a faceta mordaz e irreverente deste autor, a faceta que se lhe reconhece e que o distingue, por exemplo de um ... Saramago.
"Algumas crónicas" assim se chama o livro (de bolso), do qual eu aqui deixo uma das muitas crónicas (talvez coloque mais tarde alguma outra!), que tanto me alegraram ler.

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Aos cinquenta anos, que é quando se começa a confundir a saúde com a virtude, o bom senso parece-me uma espécie de dieta cuja ausência de sal me desagrada.
Até agora fugia das praias, por não poder ir mais longe do que os cremes de bronzear com mulheres dentro dos guarda-sóis de uma terceira idade que ainda não é minha, onde os sexagenários vêm morrer na areia numa desilusão de cachalotes sem esperança, guardados por esposas que os alimentam de sanduiches de paio e de jornais desportivos.
Atualmente as praias deixaram de me interessar porque me apetece, de fato, ir embora, não daqui mas do que tenho sido, ou seja do medo de uma cadeira vazia do outro lado da mesa do almoço, com uma jarra de flores de plástico por troca com um sorriso que se inquieta com as nossas alterações de humor e nos recomenda uma visita ao dentista, tomando pelo mal-estar de uma cárie o desgosto de nós mesmos que nos faz arrastar de sofá em sofá essa espécie de reumatismo da alma que as porteiras e os psiquiatras confundem com a tristeza.
Apetece-me ir embora se bem que uma visita a um supermercado, feita a sós, se me afigure mais penosa que uma exploração polar; os corredores de latas e de frascos, sempre prontos a desabarem sobre mim bolachas de chocolate, salsichas de conserva e iogurtes sortidos, têm uma caixa registadora a tilintar ao fundo um minuete de trocos que me empalidece a solidão. Mas é possível abastecer-me  nas mercea-ria-zinhas de bairro, que prolongam a província na cidade com o odor agridoce do bigode da patroa e uma desarrumação de celeiro em que descubro a minha infância, esquecida nos granitos de uma beira perdida.
Apetece-me viver como um estudante sem família numa Lisboa apertada entre Almirante Reis e a Pascoal de Melo igual a uma rapariga a ler de cabeça entre as mãos. Não serei um senhor idoso como esses que hibernam o dia inteiro e não dormem de noite mas um adolescente de cabelos brancos entregue, sozinho em casa, a essa atmosfera de aventura que alegra a existência dos homens quando se dedicam ao que decidiram ser trabalhos de mulher.
Talvez que em Santa Apolónia, para além dos comboios que chegam, existam alguns comboios que partam, e Tomar, por exemplo, me continue a oferecer a amplidão de um futuro que teimei, desde que de lá saí, em reduzir às proporções de um presente esquelético que os romances iluminam de uma claridade de azeite de ampolas de hospital, sol de doentes que não aquece nem exalta.
O meu drama consiste em ter demorado tempo de mais a entender que os verdadeiros fantasmas são os vivos e em descobrir, no espelho da manhã, uma cara parecida com a dos meus retratos que me pedia o que tinha medo de lhe dar.
Talvez agora, por baixo do sabão da barba, ela responda com um sorriso ao meu sorriso, talvez desapareça do vidro quando me for embora, mais jovem do que estas rugas que lhe encontro, tão incompreensíveis e definitivas como uma receita de médico, que os farmacêuticos traduzem em pastilhas e xaropes à laia de quem troca escudos (euros) por moeda estrangeira de acordo com um câmbio misterioso.
Há de certeza comboios que partem, quanto mais não seja os que enferrujam imóveis nos carris abandonados, habitados por ervas e pedintes. Sento-me a um canto, entre dois bêbados de vinho esfarrapado e apeio-me em Lisboa com os primeiros candeeiros da noite.


      António Lobo Antunes.Se tiver um pouco de sorte hei-de encontrar a cara do espelho à minha espera. Se não, não vou desesperar: recuperá-la-ei num reflexo de montra e viremos juntos para casa jantar frente a frente, sem presságios nem remorsos, livres da dieta do bom senso que nos tirou o gosto aos dias e sem a necessidade de uma jarra de flores de plástico para nos defender da ... solidão.
                                                   

1 comentário:

Regina Rozenbaum disse...

Não conhecia o autor. Esse manual de instruções é bem realidade, né?! ai ai meu amigo..."e viremos juntos para casa jantar frente a frente, sem presságios nem remorsos, livres da dieta do bom senso que nos tirou o gosto aos dias e sem a necessidade de uma jarra de flores de plástico para nos defender da ... solidão." ai ai...
Beijuuss n.a.

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